December 1, 2021
Rendimento
Sprints em hipóxia para melhorar o desempenho nos esportes coletivos
Os esportes coletivos – como futebol, rúgbi, handebol, hóquei ou basquete, entre outros – são caracterizados pela alternância de esforços curtos de altíssima intensidade (<10 segundos) com períodos de recuperação em menor intensidade. É por isso que a capacidade de fazer sprints repetidamente torna-se um dos principais determinantes do desempenho. Na verdade, vários estudos observaram que jogadores que competem em uma categoria competitiva mais elevada (por exemplo, profissionais em vez de semi-profissionais) apresentam uma melhor performance em testes de sprints repetidos.
Treinar a habilidade de executar sprints repetidos é, portanto, um dos pilares fundamentais no planejamento de esportes coletivos. De fato, o treinamento de sprints repetidos demonstrou ter aumentado não apenas o consumo máximo de oxigênio dos atletas, mas também o pico de velocidade e a velocidade média ao realizar vários sprints consecutivos. Nesse sentido, embora as sessões de sprints repetidos sejam realizadas normalmente em normóxia (quer dizer, com uma concentração normal de oxigênio), cada vez mais evidências mostram que realizar tais sessões em hipóxia (com uma concentração de oxigênio expirado reduzida, como durante o treinamento em altitude ou com hipóxia por gerador) pode trazer maiores benefícios.
Sustentando o potencial da realização de sprints repetidos em hipóxia, uma metanálise publicada na prestigiosa revista Sports Medicine, e realizada por especialistas em hipóxia como Franck Brocherie e Grégoire Millet, analisou os estudos que comparavam os efeitos deste tipo de treinamento com os mesmos exercícios realizados em normóxia. Cobrindo 9 pesquisas com mais de 200 participantes no total (incluindo diferentes esportes como futebol, lacrosse, hóquei, rúgbi ou mesmo ciclistas e esquiadores de fundo), os resultados mostraram que o treinamento de sprint em hipóxia (realizado principalmente de bicicleta ou corrida, e com uma média de 2-3 sessões por semana num período de 4 semanas) melhorou o desempenho médio em sprints com mais intensidade do que o referido treinamento em normóxia. Efetivamente, até mesmo intervenções de sprints muito curtas em hipóxia têm mostrado benefícios. Por exemplo, um estudo comparou os efeitos de apenas 4 sessões de sprints (3 blocos de 8 sprints de 10 segundos, com recuperação de 20 segundos entre cada sprint) realizadas em normóxia ou hipóxia por duas semanas em jogadores de rugby, e os resultados mostraram que, com a realização em hipóxia dessas 4 sessões, os jogadores melhoraram ainda mais a sua potência máxima e média nos sprints.
A propósito, embora a maioria dos estudos tenha avaliado os efeitos da realização de sprints repetidos com hipóxia artificial induzida por um gerador de hipóxia – um recurso não disponível para todas as equipes – cada vez mais evidências mostram que benefícios podem ser obtidos mesmo quando tal hipóxia for produzida por meio de hipoventilação voluntária (ou seja, simplesmente prendendo a respiração durante os sprints). Por exemplo, um estudo avaliou jogadores de rúgbi que realizaram uma sessão de sprints repetidos de 40 metros com hipoventilação ou respiração normal. Após 4 semanas de treinamento, descobriram que aqueles que tentaram prender a respiração durante os sprints melhoraram o número de esforços que poderia ser repetido até a fadiga (de 9 a 15), enquanto o grupo de controle não melhorou seu desempenho.
Os mecanismos exatos pelos quais o treinamento de sprint hipóxico maximiza o nível de desempenho em comparação com o mesmo treinamento normóxico ainda são desconhecidos. No entanto, sugere-se que a hipóxia poderia estimular ainda mais o recrutamento de fibras rápidas e o metabolismo glicolítico, contribuindo assim para melhorias na potência muscular. Além disso, o treinamento em hipóxia poderia melhorar a capacidade de tamponamento ou ‘buffer’ do músculo (o que permitiria atenuar a fadiga induzida pelo acúmulo de metabólitos durante os sprints) bem como promover ainda mais a angiogênese e biogênese mitocondrial, ou seja, a criação de novos capilares e mitocôndrias no nível muscular. Portanto, os benefícios dos sprints repetidos realizados em hipóxia parecem estar ligados principalmente com adaptações no nível periférico (ao nível muscular), e não tanto no nível central como acontece com outro tipo de treinamentos tradicionais em hipóxia (como, por exemplo, os exercícios em altitude, que principalmente produzem uma melhora na capacidade de transportar oxigênio para os tecidos, por causa de um incremento da eritropoiese).
Conclusões
Melhorar a capacidade de realizar sprints repetidamente deve ser um dos principais objetivos na maioria dos esportes coletivos. Para isso, o treinamento específico daquela capacidade por meio do desenvolvimento de protocolos de sprint repetidos parece ser uma das estratégias mais eficazes, e mesmo que seja possível obter benefícios realizando tal treinamento em normóxia (ou seja, em condições normais de oxigênio), a realização na hipóxia (por meio de gerador artificial de hipóxia, ou mesmo por hipoventilação voluntária no caso de ter menos recursos) parece maximizar os benefícios obtidos.
Referência:
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- Bishop D, Girard O, Mendez-Villanueva A. Repeated-Sprint Ability – Part II Recommendations for Training. Sport med. 2011;41(9):741-756.
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- Beard A, Ashby J, Chambers R, Brocherie F, Millet G. Repeated-Sprint Training in Hypoxia in International Rugby Union Players. Int J Sport Physiol Perform. 2019;14(6):850-854.
- Fornasier-santos C, Millet GP, Woorons X. Repeated-sprint training in hypoxia induced by voluntary hypoventilation improves running repeated-sprint ability in rugby players. Eur J Sport Sci. 2018;0(0):1-9. doi:10.1080/17461391.2018.1431312
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- Girard O, Brocherie F, Millet GP. Effects of Altitude/Hypoxia on Single- and Multiple-Sprint Performance: A Comprehensive Review. Sport Med. 2017;47(10):1931-1949. doi:10.1007/s40279-017-0733-z
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